Teoria: Seria “Gashina” um tributo a Frida Kahlo?

Gashina é o comeback solo da ex integrante Sunmi do grupo Wonder Girls, o MV é carregado de simbolismo e analogias que tentam expressar como a cantora se recupera de uma separação.

Minha teoria consiste em que por meio da simbologia, letra da música e mais alguns outros detalhes que pretendo expor ao longo do blog, é possível encontrar muitas semelhanças com as obras da pintora Frida Kahlo durante o período de separação de seu marido Diego Rivera.

Mas não vou focar só na relação com pintora, também quero explicar parte do enredo do vídeo clipe.

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É uma pintora mexicana com o olhar intenso e as sobrancelhas dominantes, conhecida por seus auto-retratos. Cresceu durante a Revolução Mexicana, que certamente não era o momento mais fácil de ser mexicano. Foi vítima de um acidente rodoviário quase fatal aos 18 anos , o qual a deixou incapacitada e incapaz de ter filhos. Isso afetou toda a sua vida, durante o qual ela sempre teve que lutar contra problemas de saúde física (ela até amputou uma perna). Um turbulento casamento, abortos espontâneos e sem filhos, ela transformou as aflições em arte revolucionária.

Gostava muito de flores, certa vez disse que “Pinto as flores, assim elas não morrem”, as usava constantemente como adorno no cabelo o que inclusive tornou-se uma das suas características marcantes.

A letra de “Gashina” faz inúmeras referências à flores tendo comparações de forma que o eu lírico seria uma flor que todos querem cheirar menos a pessoa que o abandonou, Sunmi até usa uma coroa de rosas na cabeça com um vestido bem similar as roupas que Frida usava.

“Tudo bem, vou te esquecer

Eu vou viver como uma flor, eu serei eu mesma

Ninguém pode me parar agora”

:arrow_forward:fonte da tradução:arrow_backward:

Frida Kahlo. 1939, foto de Nikolas Muray.
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Acredita-se que o “juramento do dedo mindinho” tenha surgido no Japão, onde na era Edo acontecia de mulheres cortarem a ponta de seus dedos mindinhos e darem como prova de amor. Membros da Yakuza cortam parte de seus dedos como forma de punição e existem inúmeras referências ao dedo mindinho na cultura asiática.

Existe uma conexão entre a promessa do dedo mindinho com a lenda asiática de que estaríamos unidos por um fio imaginário que está preso em nosso dedo mindinho, esse fio nos ligaria até a pessoa amada.

No MV de “Gashina” vemos Sunmi desenrolando o dedo mindinho como uma possível referência a promessa de que o amado ficaria ao lado dela.

Frida Kahlo foi casada com Diego Riveira desde os seus 22 anos, estava “acostumada” com as casos extraconjugais do marido, porém a linha final para o casal foi quando Diego a traiu com sua irmã mais nova Cristina.

Uma vez descoberta a traição o casamento foi ladeira abaixo e então temos uma série de pinturas que possuem um simbolismo que eu acredito que foi refletido no MV e letra de “Gashina”.

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Dois anos após a traição Frida pinta um autorretrato com um rosto sem expressão e usa roupas do estilo europeu, enquanto casada com Diego usava roupas tradicionais mexicanas juntamente com fitas e flores no cabelo, com o fim do relacionamento ela corta o cabelo comprido que o marido gostava e muda o seu estilo de se vestir.

Acredito que o uniforme colegial seja uma referência ao acidente com o bonde que ela sofreu quando tinha 18 anos e seu traje de Tehuana ao casamento com diego, pois ela mesma disse “Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e você. Você sem dúvida foi o pior deles”.

Memória, o coração. por Frida Kahlo, 1937.

No MV vemos a cantora entrar no meio de várias roupas espalhas no chão e ela aparenta não encontrar algo que lhe agrade ali, então ao sair do cômodo ela muda o seu estilo de roupa trocando o vestido preto por um maiô florido.

Ocorre diversas mudanças de roupas após a entrada no guarda roupa, me parece uma tentativa de renascer e mostrar o seu “verdadeiro eu” depois de um término conturbado. Assim como Frida mudou seu estilo e parou de usar coisas que lembravam o marido.

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Acredito que não ficou muito claro a linha do tempo do relacionamento de Frida e Diego, mas resumindo, ela o pegou traindo com sua irmã em 1935 porem a separação não aconteceu imediatamente, foi um vai e vem, viveram separados por um tempo até que o divórcio ocorreu em 1939.

Uma vez divorciada, temos esse autorretrato de 1940 onde existe um trecho de uma música popular no fundo do quadro, “”Olha, quanto te amava, era pelo teu cabelo; agora que estás careca não te amo mais” e ela usa roupas masculinas ao invés dos tradicionais vestidos, tem uma tesoura na mão insinuando que ela cortou os cabelos, Diego apreciava tanto o cabelo comprido quanto os vestidos tradicionais de Frida, ao trocar esses elementos ela expressa seu desejo de ser independente e não confiar nos homens.

Sunmi também aparece em um momento do MV com uma peruca curta, gravata e roupas masculinas.

Autorretrato com cabelos cortados, por Frida Kahlo, 1940.
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Ainda em 1940 o autorretrato com um colar de espinhos nos faz criar várias hipóteses, ele representa toda dor que ela vivenciou ao longo de sua vida, sejam essas dores relacionadas a saúde ou aos adultérios do marido. Também existe um beija flor, que na tradição mexicana é símbolo de sorte, a forma como ele é introduzido na pintura até me faz pensar em Frida se representando como uma flor, de forma antagônica foi posto um gato preto, símbolo de azar e também uma maneira de expor que em breve a boa sorte do beija flor vai ser devorada.

Autorretrato com Colar de Espinhos e Beija-flor, por Frida Kahlo, 1940.

Sunmin faz uma referência a espinhos no trecho:

“Você me verá afiada

E você vai curvar sua cabeça

Os meus espinhos vão mergulhar mais fundo em você”

Não existe uma ligação direta, mas esse autorretrato em especial é um dos mais famosos de Frida e a presença do beija flor de fato me faz pensar nela como uma flor, criando assim um certo elo entre a canção e as pinturas produzidas no período de separação.

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A banheira é um elemento bem marcante no MV, existe uma pintura de 1938 (o ano anterior ao divórcio) e inclusive existe um relato da pintora a explicando: “É uma imagem da passagem do tempo sobre o tempo e infância jogos na banheira e a tristeza do que tinha acontecido com ela no curso de sua vida” disse Frida ao amigo Julien Levy.

O que eu vi na água, por Frida Kahlo, 1938.

No clipe, Sunmi parece entrar num mundo de fantasia dentro da banheira e se vê rodeada por flores, posteriormente ela surge ainda na banheira na lanchonete do início do vídeo, este lugar antes aparecia a placa de fechado e em algumas cenas de dança perto do fim é possível ver a placa em LED escrito “open” aceso o que indica que ela abriu seu coração para novas oportunidades.

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Outro ponto interessante foi a troca entre os dançarinos masculinos pelos femininos em algumas performances, Frida era bissexual e teve casos com homens e mulheres enquanto estava casada com Diego, as vezes ela até dormia com mulheres as quais o marido já havia deitado.

Tentei procurar saber mais sobre a troca de dançarinos, mas não encontrei nada especifico, sei apenas um de vídeo especial no canal da nova gravadora da Sunmi onde aconteceu a troca e foi super bem recebido pelos fãs.

:arrow_forward:Assista o vídeo :arrow_backward:

Vale lembrar que durante essa coreografia, no momento em é dito “a dor da tristeza está se esvaindo também” todo mundo coloca a mão próximo ao local onde Frida foi atingida pela haste de metal do bonde quando tinha 18 anos.

Assista a performance:

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No início do vídeo vemos uma sombra de alguém indo embora e é possível ver em seguida um carro partindo; no fim assim que Sunmi sai correndo da lanchonete rapidamente encontra o carro novamente.

Não é claro se ela volta para o amado mas é evidente o reencontro repentino.

Frida se divorciou em 1939 e em 1940 casou-se novamente com Diego, ou seja, mesmo depois das transformações físicas e emocionais ambas a pintora e a cantora voltam para os respectivos amados.

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Isso é tudo pessoal, espero que tenham gostado da teoria e gostaria de agradece minha mãe por ler todos os meus blogs. Admito que estava desanimada a continuar produzindo conteúdo para o amino (este post foi originalmente publicado nesse aplicativo), porém mamãe ao ouvir isso ficou triste, me encorajou bastante e graças a ela escrevi esse post.

Obrigada mãe por sempre me apoiar, escolhi essa teoria pois ela lida com pinturas e minha amada progenitora nunca recusou me dar um livro caro que pedisse, apoia minha decisão de me aprofundar no estudo dessa arte e sou eternamente grata por isso, mesmo que esse meu interesse pela pintura tenha surgido graças a uma série de percalços tanto na minha saúde e no meu emocional, no fim toda a estrada tortuosa valeu a pena.

Assista o MV e deixe nos comentários se você encontrar algo à acrescentar na teoria.

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Para quem de preguiça de ler e gostaria de saber mais sobre a vida e obra de Frida Kahlo, recomendo o filme de 2002 dirigido por Julie Taymor, ele faz um belo apanhado da vida da moça além de explicar algumas pinturas.

 

Referências bibliográficas:

Dicionário de Símbolos. 1988 por Jean Chevalier

Kahlo. 2014 por Andrea Kettenamann

Frida. A Biografia. 2010 por Hayden Herrera

Japão – Grandes Civilizações do Passado. 2008 ed. Folio.

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